Aqui vou eu tentar comentar algumas coisas a respeito das minhas andancas americanoides. E tudo sem acento, cedilha ou til.

Pois bem, por enquanto, todo o meu ingles melhorou em 0,005%, ja que convivo diariamente com a familia da minha irma (e todos falam portugues em casa), que habitam numa regiao e num bairro muito povoado por latinos. Mas isso eh detalhe. Quando eu precisar mesmo falar em ingles, pfff, vai sair uma gororoba qualquer e eles que se esforcem em me entender. Quiseram que eu viesse? Muito bem, facam-no por merecer (estou aprendendo com a cultura local).

No mais, nao tive contato com a cultura realmente americana, aquela pura e bem ariana. Los Angeles (e a California como um todo) sao o ponto de chegada de varios “mexicas”, e, la pelos idos de antigamente, esta terra ja foi o Mexico. Dizem que na constituicao do Estado da California, a lingua oficial eh o espanhol. Nos bancos e supermercados se fala em espanhol. Todos tem cara de latinos, e se tu solta um “Hola!” tudo se resolve.

Talvez por isso o que mais me admirou foi ver como essas pessoas sentem-se vencedoras por estarem aqui. Independentemente do que facam, do que conquistaram, ou do que realmente mudou na vida delas. Mas o fato de estarem nos Estados Unidos lhes garante uma dignidade (?) que nao teriam se permanecessem nos seus paises. Eh engracado como isso se nota no jeito que essas pessoas contam o seu passado. Sao todos herois.

Pessoalmente, tem outras coisas em jogo. O fato de existir um supermercado inteiro, com as mesmas coisas que um supermercado normal, com as mesmas marcas dos produtos de qualidade, chamado “99 Cents” ja me causa espanto. Ou seja, tudo aquilo que no Brasil custa 10, 20 ou ate mesmo 50 reais, aqui custa 99 centavos. E mesmo nos supermercados normais, aquilo que pagariamos com 1 mes de trabalho, aqui custa 1 hora ou menos.

Digamos que a cada compra que eu faca eu me sinta roubando de um africano ou aumentando em uma hora o horario de trabalho de um chines. E colaborando na vinda de mais 3 familias latinas para aqui.

Mas, enfim, eu, enquanto fui um assalariado brasileiro, colaborei durante alguns meses para que estes malditos yankees tivessem o nivel de vida que tem. Entao, deixem-me gozar das delicias deste mundo materialista.

Esses dias fui para o centro de LA. Peguei um trem bom, confortavel, de dois pisos, com lugar para todos os passageiros viajarem sentados. E a viagem nem foi tao longa assim: 1h30. Chegando na Union Station (que mais parece, do lado de fora, com um mosteiro espanhol desativado), caminhei ali por perto, chegando ate aquilo que foi o primeiro povoado de (com sotaque castelhano) Los Angeles, formado por comerciantes mexicanos. Visitei a casa Avila Adove, primeira moradia da regiao, e um calcadao repleto de restaurantes mexicanos e barraquinhas de camelos bem parecidos a qualquer ponto turistico brasileiro.

Conheci tambem a Iglesia de Nuestra Senora Reina de los Angeles (a chave-mestra para o surgimento do nome oficial da cidade). Depois, sai caminhando ate chegar na Catedral. Religiao tambem eh cultura.

A arquitetura da tal catedral tem algo de muito espantoso. Por fora, o predio parece qualquer coisa, de museu a danceteria, menos uma igreja (com excecao da gigantesca cruz que tem na frente e a torre dos sinos). E por dentro eh mais desconcertante ainda (acho que esse eh o termo propicio para o formato do templo). Nas alas da catedral, existem alguns “nichos” ocupados ou por confessionarios (extremamente modernosos e tecnologicos) ou por salas de exposicao de arte. No dia em que eu fui, havia uma exposicao de arte surrealista. No subsolo, o mausoleu. Ou seja: um cemiterio chique. Cadaveres e mais cadaveres dormem naquele chao.

Saindo de la, continuei caminhando. E eh facil ser turista em cidades que sao preparadas para turistas. Logo na saida da catedral, havia um estande onde um simpatico senhor me ofereceu um mapa especial para turistas com a rota turistica do centro da cidade.

Mas nao vou ficar detalhando cada coisa que eu vi. A questao eh que eu cheguei num ponto em que a camera (e so se eh turista de verdade se se tem fotos para comprovar) ficou completamente sem bateria. E que sacrificio para achar um boteco que vendesse pilhas! Centro de negocios eh isso… So predios e mais predios (ta, nem sao tantos assim…), mas nada de um armazem pra comprar Rayovacs.

No caminho em busca a uma fonte de eletricidade, me deparei com uma constatacao: os angelinos tem problemas graves com agua. Nao pelo fato de estarem no meio de um deserto, mas sim porque qualquer “coisa” turistica ter alguma coisa com agua, sejam elas fontes, chafarizes ou qualquer outro tipo de saida de agua. De decoracao, sabe? Ja que estamos num deserto, e a agua eh escassa, qual o problema de gastarmos mais um pouco e fazer algo bonito?

Outra coisa turisticamente interessante eh pegar o metro e ir sem rumo e descer em alguma estacao aleatoria. Porque sim. Porque deu na telha. Porque pareceu atrativa. Entao, caminha-se naquela regiao por algumas quadras e analisa-se se ha algo turisticamente interessante. Se sim, aproveita-se. Se nao, sobe-se no proximo metro rumo a proxima estacao interessante. Foi assim que eu descobri que se podia chegar de metro a tal Universal City (onde existe um calcadao fancy com todos os personagens dos estudios Universal, assim como todas aquelas lojas americanoides, cheias de neon e coisas brilhantes) e tambem assim descobri que a Calcada da Fama ficava bem longe da estacao que eu teimei em acreditar que ficava perto.

Outra coisa boa em ser turista em cidades organizadas eh ter um transporte bom. LA tem um transporte bom, com horarios flexiveis e com terminais proximos dos pontos principais. Mas o melhor de tudo eh os “day-pass”, que te permitem ir e vir o dia inteiro por um custo bem baixo. Outro detalhe eh que nao existem bilheterias. Nao existem pessoas. Existem maquinas. Existe self-service. Quer uma passagem? Entao para que se incomodar com um atendente emburrado ou com um funcionario cheio de bacterias e microbios e com personalidade psicotico-assassina? Tudo pode ser muito mais facil com uma maquina que, ao receber o dinheiro, te entrega o troco e o tiquete. Simples, nao?

O mesmo vale para as roletas. Elas simplesmente nao existem. Se eu quisesse, poderia ter viajado em todos os meios (trem e metro) sem dar contas ao Schwarzenegger. Mas para que tentar? Se me pegassem, o custo era 250 dolares mais 48 horas de prestacao de servicos publicos, fora o mico de ser algemado em publico e tratado como perigo nacional pela guarda municipal, como eu vi acontecer com um grupo de emos locais.

Depois de mais 1h30 de viagem de retorno, a ideia era esperar que a minha irma me pegasse na estacao de trem. Mas como ela nao chegava, e o meu celular estava sem bateria, resolvi investir no transcurso em onibus. Quando chegou, o motorista se mostrou muito atencioso e simpatico, mas sem dar muita relevancia ao fato de a maquina de tiquetes dos onibus nao aceita notas de 20 dolares, como a que o aparato acabava de engolir, sem proposito de me devolver algum dia. Ou seja: me fudi. Para piorar, foi a unica maquina de todo o meu dia que nao dava troco. Que sorte, nao? O motorista, encarnando toda a tradicao de heroismo, justica e orgulho americanos, nao se fez de rogado: me vendeu um “week-pass” e mais dois tiquetes para aquele dia, para assim poder completar os 20 dolares. Os dois tiquetes do dia expiravam exatamente 30min depois do acontecido, pelo que exultei de alegria. E depois da experiencia, nunca mais pretendia viajar de onibus, pelo que o week-pass se tornou objeto de adorno e contemplacao.

Essa foi uma das indiadas que resolvi cometer por conta propria. Foi divertido.

No mais, a vida segue. Dentro de alguns dias, comeco o trabalho no acampamento. A cada novo software de rotas e turismo que eu descubro e a cada nova atualizacao do Google Earth e Google Maps, me dou mais conta de que estou indo para a Sbornia americana. A cidade nao tem absolutamente nada, a nao ser uma prefeitura, uma biblioteca publica e uma caixa d’agua como ponto turistico central. Alem disso, o acampamento fica a umas 3 milhas do “centro” da cidade. Como o meu “tutor” americano prometeu, conhecerei profundamente o jeito de viver do interior americano. Voces estarao certamente a par de como isso eh, dentro de alguns dias.

No mais, saudades da minha lindinha, a Anne. Mesmo ha milhas e milhas de distancia, ela fica aqui, me fazendo feliz. Que coisa, nao?

Ah sim, um detalhe a mais: tudo exalava Shrek aqui em Los Angeles nos ultimos dias. Todas as estacoes de trem, onibus, paredes, outdoors, jornais, revistas, televisao, internet, em todos os formatos e possibilidades graficas possiveis. Pra piorar, descobri que a Dreamworks ja esta planejando o quarto filme para 2009. Alguem descobriu quem dublou o ogro verde na versao brasileira?